Nos jornais do Brasil: Já são mais de 650 os mortos pelas inundações e deslizamentos provocados pelas chuvas dos dias 11 e 12 de janeiro na região serrana do Rio de Janeiro.
Isso me confunde. Me confunde mesmo. Eu não sei se observo o fato de a mídia inglesa estar muito mais interessada no que está acontecendo em Queensland do que em desastres ainda maiores ocorrendo no resto do mundo, ou se aponto o fato de que todas essas mortes no Rio são resultado de um efeito dominó construído há anos pela ocupação irregular de regiões inadequadas para a construção de casas, além do trabalho pobre em conservar a vegetação essencial para a drenagem de toda essa água - que talvez houvesse evitado uma tragédia dessas dimensões se estivesse melhor preservada.
Difícil. Difícil mesmo.
Não estou menosprezando, aproveito para deixar claro aqui, a dor e o sofrimento das vítimas de nenhuma tragédia. Perder uma casa, perder um membro da família, uma vida, são coisas sobre as quais eu provavelmente nem tenho o direito de comentar, já que nunca passei por nada disso desse jeito. Eu só quero apontar os fatos.
E os fatos são os seguintes: se vocês colocarem no google as palavras chuvas e Rio de Janeiro, vão achar notícias desse tipo indo até mais de três anos atrás, muito provavelmente. A diferença dessa vez foram as dimensões. A diferença foi que a estrutura chegou ao limite.
Essa diferença só não existe, é claro, para a mídia que cobre esses acontecimentos.
Quanto a Austrália, de novo, não tenho como julgar o que qualquer um esteja passando, e ainda aponto que os acontecimentos podem ter o atrativo extra de serem os primeiros desastres desse gênero a atingirem a região em 50 anos. Mas mesmo assim, não creio que isso seja a principal razão para isso ter tanto espaço na mídia inglesa.
A verdade é que as pessoas se interessam mais por histórias com as quais se identificam. É algo natural, biológico até. E é claro que a grande mídia sabe disso. E explora isso até secar.
As vezes, parece até que é isso que alguns membros dessa nossa classe sabem fazer melhor. Explorar a tragédia até a última gota. Eu gostaria de dizer que serei um tipo diferente de jornalista, gostaria mesmo, mas as vezes fico hesitante quando vejo como as coisas são grandes demais para uma pessoa mudar. E mesmo assim, eu vou continuar tentando, porque é isso que eu, que nós fazemos.
Tentar, insistir e incomodar, e esperar que um dia possamos dizer com orgulho que somos jornalistas e não aves de rapina do sofrimento alheio. Que podemos trazer informação de forma igualitária para todos e fazer uma mídia limpa.
Eu continuo aqui sonhando, ao menos, enquanto estou acordada. Vamos ver onde vai dar.
P.S.: Me chegou aos ouvidos uma história sobre algumas pessoas do Rio criticando a administração das cidades nordestinas que sofreram com as chuvas no meio do ano passado. Eu não vou defender a administração de cidade nenhuma de Alagoas, mas devo apontar que o problema definitivamente foi maior no Rio de Janeiro. E que os avisos vieram antes, e foram ignorados.
2 comentários:
o que torna o post mais interessante ainda é o fato de você estar vendo o mundo sob o ponto de vista londrino/inglês. Cá entre nós, eu entendo o porquê do interesse maior na Austrália, afinal, como você mesma disse... Queensland. :/
mas sobre essa da mídia explorar a tragédia... já ajuda, e muito, que você seja uma futura jornalista, consciente disso, revoltada e disposta a fazer diferente. Infelizmente, servimos aos chefes. O que nos resta fazer é tentar dar nossos próprios moldes a essa tragédia.
muito bem escrito e pontuado, como sempre ^^
É impressionante o tom hipócrita que alguns veículos de comunicação usam ao mostrar a exaustão as cenas de tragédias naturais.
Claro que isso é feito simplesmente por dar audiência, pelo impacto curioso da palavra "tragédia", o interesse mórbido na desgraça quando não se está presente.
Infelizmente, não são apenas alguns jornalistas que são abutres, eles apenas sobrevoam a carcaça para que o resto do bando veja onde ela está.
É triste usar o sofrimento alheio como ganha-pão, não é maninha? Mas existem alternativas, e se pra tudo tem um jeito a gente consegue ao menos um dia ficar longe desse banquete macabro para olhos sedentos.
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